domingo, 23 de dezembro de 2018

Um alerta contra João de Deus e outros do mesmo naipe.

Recentemente, um dos casos mais noticiados na mídia é relativo ao "médium" João de Deus que foi acusado de diversos casos de assédio sexual, querer lucrar sobre a fé alheia e diversas outras irregularidades e crimes. Mas, não iremos nos alongar explicando todo o caso, pois a mídia já tem noticiado bastante esse assunto.

Um detalhe que tem passado desapercebido e que poderia ser um alerta para evitarmos outros casos futuros estava em uma foto/filmagem que a mídia exibiu sobre o local de trabalho "espiritual" que o tal João usava. Na parede em destaque estão quadros de vários seres considerados de luz para a fé daquele grupo: Jesus, Santo Inácio de Loyola, alguns outros que não consegui identificar e etc e no meio dos quadros, quem que estava? O próprio João em um ato de auto-exaltação do ego, como ele sendo um desses seres que eles consideram tão elevados.

Vejam essa foto divulgada pelo G1

Essa adoração ao líder, essa idolatria cega é um caminho para o fracasso espiritual e para todo o tipo de erros. Uma espiritualidade saudável pode e deve ser questionadora e em seus questionamentos deve ser humilde. Um líder que se auto-exalta ou exige obediência total e inquestionável sempre serão líderes a não serem seguidos, pois na melhor das hipóteses estão completamente equivocados (cegos guiando cegos) e na pior da hipóteses são charlatões/abusadores e estão a serviço de forças malignas.

Tenham cuidado, pois esse tipo de coisa não ocorre só em uma religião específica, e nem apenas só no meio religioso. No meio iniciático existe, na política e em todos os lugares.

Nossas orações para as vítimas e nosso alerta para todos! Cuidado com os falsos líderes iluminados, com as seitas que exigem que recusam o livre-pensamento, diálogo e crítica e principalmente, cuidado com os que querem transformar a espiritualidade em negócio lucrativo e cuidado com aqueles que se exaltam demais: "[...] Os humildes serão exaltados, e os exaltados serão humilhados." (Ezequiel 21:26).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O cristão taoista: seguindo Jesus de maneira gentil e criativa.

por Bruce Epperly (ministro da Igreja Unida de Cristo) e Jay McDaniel (teólogo especialista em diálogo inter-religioso).

igreja emergente no Ocidente - a igreja de buscadores espirituais que buscam compartilhar a jornada de Jesus, mas não impô-la aos outros - já é taoista no tom. O que resta é que os participantes desta nova e emergente igreja se voltem para o oriente, aprendendo com os cristãos asiáticos e as tradições culturais que eles trazem consigo, aprendendo assim a suavizar seu entusiasmo com a humildade da poeira estelar. O que resta é que eles percebam que uma das melhores maneiras de “proclamar o evangelho” não é proclamar, mas sim percorrer um caminho de gentileza, que é sua própria proclamação, sua própria boa nova.

Esta boa notícia não precisa ser nomeada. Como os lírios do campo, torna-se e mostra-se em ações humildes, como a própria fé. O cristão taoista é aquele que confia (1) que o cristianismo é um meio de viver e não um conjunto de respostas; (2) que os ventos do espírito sopram em muitas direções, e que os humanos podem ser refrescados por esses ventos, mesmo que não sejam cristãos; (3) que vivemos e nos movemos e temos nosso ser dentro do contexto mais amplo das Dez Mil Coisas, cada uma das quais merece respeito, (4) que a boa vida reside em viver de maneira simples e honesta, sem pretensão e necessidade de ser notado; (5) que as ações espontâneas, naturais e desprovidas de autoconsciência, podem ser uma forma de espiritualidade por direito próprio; (6) que uma chave para entender a vida é imitar a água, com sua liberdade de se adaptar às novas circunstâncias de maneiras novas, (7) que a ambição cega é um beco sem saída e a gentileza do espírito é um ideal elevado, (8) que as pessoas mais próximas da verdade são aquelas que não falam sobre isso, porque conhecem a sabedoria do silêncio.

Esses cristãos também têm uma processo metafísico. Eles se acham um pouco perturbados com a verbosidade do cristianismo e se encontram reescrevendo o Evangelho de João para ler: “No princípio o Tao e o Tao estavam com Deus e o Tao era Deus?” Junto com os taoistas, eles se acham pensando em todas as coisas - até mesmo Deus - não simplesmente como substantivos ou mesmo como verbos que contemplamos em nossa mente, mas também como advérbios: isto é, como entidades cujo ser é parcialmente formado pela forma como elas se tornam. Aqui eles se assemelham a Whitehead, que escreve: “Como uma entidade real se torna constitui o que essa entidade real é.” (Process and Reality,  23)

Não seria legal se todos os cristãos se tornassem cada vez mais sensíveis ao como e não tão preocupados com o que, especialmente com o que as pessoas acreditam? Não seria bom se eles, como Jesus, aprendessem com os lírios do campo e se tornassem mais flexíveis e espontâneos, sem consideração pelo amanhã? (Mateus 6:28) Não seria bom se, ao aprender com o taoismo, os cristãos se tornassem mais… cristãos? Podemos esperançar.

Encontramos motivos para essa esperança no pequeno mas crescente grupo de cristãos no Ocidente chamado de igreja emergente. Nós enfatizamos no Ocidente porque percebemos que o cristianismo é agora uma religião pós-ocidental, com mais cristãos vivendo na Ásia, África. A frase “igreja emergente” é agora usada por uma variedade de pensadores bem conhecidos: Brian McLaren, Nádia Bolz-Weber, Doug Pagitt e Rob Bell, muitos dos quais começam no cristianismo evangélico ou conservador, mas descobriu que ser um cristão requer um entendimento mais flexível de fé.

















Esta igreja não é denominacional; seus participantes vêm de muitas tradições: Protestante, Evangélica, Católica, Não-Denominacional e Pós-Denominacional. É certo que apenas alguns desses cristãos recorrem às tradições do Leste Asiático de maneira explícita, mas seu espírito é do Leste Asiático - e talvez até mesmo taoista - em certos aspectos. Eles se vêem transformando o cristianismo a partir do interior, em diálogo com o pós-modernismo, as redes sociais e as artes. Aqui está uma descrição:  “Todos os mundos ao redor de nós estão morrendo e novos mundos estão nascendo. Toda a vida a nossa volta está morrendo e a vida está nascendo… Olhe bem para a borda crescente! ”Estas palavras do cristão afro-americano Howard Thurman capturam o espírito da igreja emergente. É diferente do antigo mundo cristão de várias maneiras.

O antigo mundo cristão às vezes via fé e espiritualidade em termos de doutrinas claramente articuladas, entendimentos puramente racionais da escritura e teologia, um foco em um caminho para a salvação e uma clara distinção entre ortodoxos e não ortodoxos e salvos e não salvos. As respostas foram claras e aplicadas a todos, independentemente da cultura e da etnia. As autoridades sabiam o que era melhor; ordenados por Deus, eles falavam o mundo imutável de Deus, distribuindo recompensas e castigos de Deus como se fossem pequenos deuses.

O antigo mundo cristão fornecia uma tradição, uma fronteira, uma identidade e uma narrativa universal que moldaram os cristãos durante séculos, e há muito de bom para a sabedoria do passado. Mas muitas pessoas hoje estão descobrindo que precisam ir além dos velhos mundos - mundos antigos cujas reivindicações de autoridade, universalidade e absolutez estão morrendo. Novos mundos estão surgindo, reivindicando o espírito criativo que animava instituições do passado, muitas vezes energizando-as apesar de seu tradicionalismo. Mesmo os ossos secos podem subir novamente, vestidos com novas cores e formas.

Um novo mundo cristão está nascendo, emergindo das experiências de buscadoras, místicas, sintetizadoras e cristãs globalmente sensíveis. Até as velhas formas estão sendo reivindicadas com um novo espírito. As experiências que deram origem às tradições estão nascendo de maneiras apropriadas para o nosso tempo. Como Howard Thurman enfatiza: “Olhe bem para a borda crescente!”

A borda crescente, emergente e emergente e gerando frutos, chama aqueles de nós que somos cristãos a “fazer as pazes como estamos progredindo”, como a fé calorosa e ruidosa dos primeiros seguidores de Jesus, descrita em Atos dos Apóstolos. A borda crescente, sempre em processo e sempre se construindo no passado, como o Tao fluindo através de estruturas antigas de novas maneiras. A crescente fé emergente reconhece as promessas do pós-modernismo e vai além delas numa fé que pode ser experimentada e compartilhada sem medo de punição ou exclusão.

A fé emergente leva a sério a crítica pós-moderna de absolutos e universalidade e descobre uma fé afirmativa dentro do que primeiro aparece como destrutivo dos fundamentos da própria fé. Os críticos pós-modernos desafiam histórias universais; A fé emergente descobre o poder das histórias pessoais e comunitárias. Os críticos pós-modernos se divertem no relativismo; a fé emergente se alegra na relatividade que permite que milhares de flores floresçam. Os críticos pós-modernos desconstroem os velhos caminhos; A fé emergente transforma criativamente os caminhos antigos à luz da nova criação dinâmica de Deus. Os críticos pós-modernos desafiam o racionalismo abstrato; A fé emergente busca o holismo no qual o conhecimento envolve mente, corpo, espírito, relacionamentos e afirma que conhecer é amar e curar. “Localização, localização, localização” - clamam críticos pós-modernos; A fé emergente se alegra no santo aqui e santo agora, na intimidade de ver cada lugar como uma revelação do divino. A localização é tudo, mas cada localização surge do universo que lhe dá origem. Nós não estamos sozinhos isolados no universo; somos filhos da poeira estrelar e da divindade. Olhe bem para a borda crescente!

A fé emergente abraça os sentidos: a mente é incorporada e os corpos são inspirados. A adoração envolve cor e gosto, palavra e silêncio, tato e olfato. A pregação convida ao diálogo e inspira a comunidade a provar, ver e praticar o que é pregado. A fé centrada em Cristo - encontrar Jesus nas ruas da vida - centraliza tudo e estimula a sabedoria dos koans, posturas de yoga e Tai Chi. Jesus está aqui, percorrendo o caminho do cristianismo, mas também acompanhando Buda e Lao Tsé, Maomé e as Mães da Terra. Governando pela humildade, Jesus deixa ir o poder para elevar toda a criação, e toda a criação descobre sua glória.

A fé emergente une o misticismo à missão. Experimentando Deus na hora tranquila, descobrimos arbustos em chamas por toda parte e vemos Deus no mínimo e no máximo. Deus nos fala nos gritos da criação, afligindo os pais na sequência de terremotos e tremores secundários. Deus sente a frustração dos marginalizados, inspirando nossa própria inquietação profética. Deus fala em nossas fomes e descobrimos que nossas escassas provisões - talvez apenas alguns pães e peixes - podem alimentar uma multidão. A fé emergente é a cura da fé - curando corações e mentes, compartilhando o sonho de Deus de curar a Terra e todas as suas criaturas. Esta é a borda crescente encarnada! Mas talvez não seja realmente uma vantagem. Talvez seja mais como um rio que flui, ou um lírio que se dobra com o vento. Talvez seja mais suave do que difícil. Talvez seu nome seja amor. Podemos esperançar.

Fonte: http://www.openhorizons.org/the-taoist-christian.html

Traduzido por: Morôni Azevedo de Vasconcellos

sábado, 1 de dezembro de 2018

Jesus e o Tao

Se você tem uma aversão à filosofia oriental (mesmo que o cristianismo seja, por origem, uma religião oriental), seja tolerante comigo, acho que você vai achar isso interessante de qualquer maneira. Eu tenho tentado encontrar uma maneira coesa de expressar aquilo que acredito, que a pessoa de Jesus nos chama em direção àqueles passos em algo muito mais profundo do que apenas uma conversão para uma religião codificada e sua visão de mundo (Cristianismo). O Tao (Dao) oferece algo para esse espaço. Com isso em mente, aqui quero explorar Jesus e o Tao.

Muitos estarão cientes do Tao através de um escrito chamado Tao Te Ching - uma peça filosófica. Poderíamos ter algumas discussões surpreendentes e demoradas sobre o Tao Te Ching, mas sustentando isto está a ideia do Tao. É importante entender que o Tao não é uma coisa a ser entendida. O Tao é mais facilmente entendido como a ordem natural subjacente do universo. Pode-se dizer que é a essência que sustenta tudo. As traduções da palavra 'Tao' nos dão palavras como "caminho", "rota" e "curso"*. Assim, não é algo a ser apreendido, porém mais um modo de existência que sustenta tudo.

C.S. Lewis em seu trabalho, A Abolição do Homem, fala do Tao como uma lei natural e imutável (seu futuro distópico no qual a realidade fundamentada do Tao é eliminada entre os seres humanos é fascinante e coloca o poder nas mãos de um grupo de elite que se assemelha a algo que não é humano). Ele observou que novos sistemas que surgem e novas ideologias que nascem são meros fragmentos do Tao e que eles devem ao Tao qualquer senso de validade que possam ter. É importante notar que o Tao é diferente do conceito cristão de Deus, onde Deus é uma entidade pessoal (embora tal descrição fique muito aquém da realidade), enquanto o Tao é um modo de ser universal e impessoal - simplesmente é. Para entendê-lo no pensamento cristão (tanto quanto poderia ser entendido), se Deus é o Criador, então o Tao é a lei subjacente em ação no universo criado e o "caminho" pretendido para toda a criação (embora, como veremos, no pensamento cristão, os dois sejam reunidos em uma pessoa).

Tudo isso é um modo extremamente superficial de entender esses conceitos - e é por isso que o Tao Te Ching usa várias formas de escrita para desenhar uma harmonia com o Tao - muitas delas causam uma certa quantidade de dissonância cognitiva para o leitor ocidental médio. A busca de muitas religiões chinesas, várias filosofias e modos de vida que se conectam com o Tao, é harmonia com Ele - esse modo de ser é conhecido como 'De' - cultivo do caminho. A harmonia com o Tao, para muitos, é o principal modo de vida, mas não há um conjunto de "fazer e não fazer" para tal modo de vida. É claro que, como acontece com qualquer abordagem filosófica da vida da humanidade, existem formas mais rígidas de 'De', como o confucionismo, mas estou intrigado com a ideia de nossas vidas serem sobre cultivar 'o caminho' (De). É ao longo desta linha e da forma natural implícita de "ser" tanto para nós como para o universo que eu quero focar.


Em muitas versões chinesas da Bíblia, a palavra grega 'Logos' é traduzida como 'Dao' (Tao). Sabendo disso, leia João 1 e onde diz 'Palavra'**, substitua-o por 'Dao' com o entendimento de que estamos falando. Eu não quero tentar fazer conexões que não estão lá, mas há alguma clareza a ser encontrada na elaboração de todas juntas que tira um pouco da bagagem que colocamos no pensamento cristão. Além disso, Eu teria cuidado tentando fazer João dizer algo que ele pode não estar dizendo, com base na filosofia grega e chinesa e, em seguida, colocar as palavras daqueles conceitos no que ele diz. Isto é mais sobre conexões que eu acho interessantes e que levam minha fé para a linguagem de outros modos de ver e entender o mundo.

No pensamento dos filósofos estoicos gregos que seguiam os passos de Heráclito, "Logos", mais frequentemente traduzido como "palavra", era um princípio de ordem e conhecimento; eles viam isso como um princípio divino que permeava o universo - daí a tradução para 'Dao'. Portanto, Jesus poderia ter dito ser o Tao, ou o Logos dos Estoicos, encarnado. Onde o cristianismo difere da maior parte do pensamento em torno do Tao é que acreditamos que Jesus é Deus - é Divino. Assim, em Jesus, temos a corporificação do Criador (“Qualquer um que me viu viu o Pai”. João 14:9) e temos a corporificação da ordem natural pretendida do universo (o Logos ou Tao, do qual tudo vem - "por ele todas as coisas foram feitas" João 1:3). Assim, Jesus e o Tao podem ser falados na mesma frase.

Então aqui está a reviravolta - quando olhamos para a pessoa de Jesus (e sua forma divina), não vemos o chamado para uma religião (embora a prática da referida religião possa ser útil para o que estamos sendo chamados) e nós não vemos o chamado para aderir a uma lista predeterminada de crenças. Ao invés dessas coisas, vemos o chamado para algo muito mais profundo - harmonização com o Tao e, portanto, a própria intenção de nossa humanidade. Somos chamados a ser totalmente humanos; nada mais e nada menos. A linguagem do pecado, então, não é simplesmente quebrar um conjunto predeterminado de regras morais, é sobre aquilo que inibe a nossa vida desejada no Tao/Logos e, portanto, criando conflito; estabelecendo algo diferente da realidade pretendida.

As "regras" do cristianismo e todos os prós e contras em que são transformados são, na melhor das hipóteses, um derivado e uma sombra do Tao - onde o cristianismo é muitas vezes reduzido a um código moral e ético para se viver. Ao invés disso, o Cristianismo é a regra despojada e os holofotes postos na transformação que Deus opera em nós para nos recriar para o nosso verdadeiro estado como parte do Tao ou Logos - Sua ordem pretendida para o universo/criação. Nosso papel é simplesmente abrir nossas vidas para essa transformação e caminhar "pelo caminho". Cristo como Deus e o Tao/Logos é a porta de entrada ("eu sou o caminho") para nós, sendo uma nova criação moldada para a realidade pretendida - a realidade que sustenta o universo - Jesus.

Há algo criado sem forma
Nascido antes do Céu e da Terra
Tão silencioso! Tão etéreo!
Independente e imutável
Circulante e incessante
Pode ser considerada a mãe do mundo

Eu não sei o seu nome.
Identificando isso, eu chamo de "Tao"
-  Tao Te Ching  Capítulo 25

Ao identificá-lo, chamo-lhe Jesus, o Cristo - não apenas um princípio, mas uma pessoa. Alimento para o pensamento e se você continuar com ele, existem muitas muitas experiências inspiradoras/gratificantes quando Jesus, nossa jornada, e muitos conceitos cristãos populares são considerados.

Escrito pelo Rev. Francis Rithchie (Igreja Metodista Wesleyana da Nova Zelândia)
Fonte: http://francis-ritchie.com/jesus-and-the-tao/
Traduzido por Morôni Azevedo de Vasconcellos

*Aqui o autor usa Path, que pode ser o curso (como o curso de um rio) ou trajeto, optei pelo uso da palavra curso por achar que sua ideia pode se aproximar mais do inexplicável Tao.

** Algumas traduções apresentam falam Verbo e outras Palavra, usei palavra por ser a que o autor usa, apesar de que o mais usual nas bíblias em português ser o termo "Verbo".

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O dia da reforma e o rosacrucianismo

Recentemente houve uma controvérsia sobre a criação de um "dia rosacruz", que seria comemorado em memória do fundador de uma das ordens neorosacrucianas. Muito foi debatido por não representar outras ordens neorosacrucianas. Porém, para o rosacrucianismo original uma data de suma importância seria o dia 31 de Outubro, dia em que se comemora o Dia da Reforma Protestante:
"Mas para que também todo Cristão possa saber de que Religião e crença somos, confessamos
ter conhecimento de Jesus Cristo, mantido, defendido e propagado em determinados e notáveis
países (como agora nestes últimos dias, e principalmente na Alemanha, ela é muitíssimo clara
e puramente professada, e está atualmente limpa e isenta de todas as pessoas desviadas,
heréticas e de falsos profetas). Também utilizamos dois Sacramentos, conforme são instituídos
com todas as Formalidades e Cerimônias da primeira Igreja reformada." Fama Fraternitatis (1º manifesto Rosa-Cruz)



O rosacrucianismo histórico surge no seio do protestantismo, como uma defesa contra a intolerância religiosa dos príncipes católicos da Alemanha. Seu legado ficou associado com o esoterismo em parte pela forte presença alquímica (sendo que a alquimia era bem comum e divulgada na época como ciência, não sendo algo tão espantoso para muitos quanto hoje), bem como pelo caráter místico (cristão) do movimento. Era uma "conspiração" protestante, mas serviu de influência e vários movimentos posteriores, especialmente no movimento pietista.

Entre os grande benefícios trazidos pela reforma protestante estão: a liberdade religiosa, Estado laico (embora alguns países protestantes possuíram ou possuam igrejas estatais), livre estudo e análise da Bíblia (e outras fontes), retorno do conceito de sacerdócio universal dos fiéis (derrubando o clericalismo radical), salvação pela graça, participação do povo em todos os sacramentos, combate contra a simonia, ...

Hoje, mesmo os fiéis de outras denominações podem louvar ecumenicamente os benefícios da reforma protestante para todos. Portanto, os rosacruzes de todo o mundo podem e devem saudar essa reforma que está na base do pensamento rosacruz.

sábado, 6 de outubro de 2018

Ódio, eleições e espiritualidade

Estamos na véspera de uma das eleições mais disputadas de nossa história recente, não apenas disputada pela competição eleitoral, mas também por conta do ódio que se alastrou nas pessoas. O ódio que nasce não apenas de ver o outro como a encarnação de todos os males, mas também o ódio que nasce de aceitarmos cegamente e de forma idólatra tudo o que o nosso favorito faz. Seja a tortura, seja a corrupção, seja os jogos de poder, tudo é relativizado quando é feito pelo meu, mas é alvo quando é cometido pelo outro.

Ao não sermos críticos sobre nossos candidatos, jogamos entes queridos na vala, esquecemos como respeitar nosso semelhante, espalhamos o ódio e a desinformação. Pior, começamos a exaltar os vícios e erros do candidato que temos como se fossem virtudes.

Lembremos porém, que isso não pode ocorrer a nós pessoas espiritualizadas, especialmente aqueles que foram lavados e remidos no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. A tentação é grande, mas nesse caso podemos repetir de todo o coração a oração de São Bento: "A Cruz sagrada seja minha Luz | Não seja o Dragão meu guia | Retira-te Satanás | Nunca me aconselhes coisas vãs | É mal o que tu me ofereces | Bebe tu mesmo do teu veneno | Amém."
















"Não discutimos nem brigamos com eles, embora preferissem que o fizéssemos e, dessa maneira, descêssemos até seu nível. Como travar essa batalha? Logo chegará o tempo em que teremos de orar não mais como indivíduos isoladamente, mas como congregação articulada, como Igreja, em que juntos elevaremos as mãos em oração; ainda que em pequenos grupos, e no meio de milhares e milhares de apóstatas, louvaremos e confessaremos o Senhor que foi crucificado e subiu aos céus e que um dia voltará." (pr. Dietrich Bonhoeffer - Discipulado)

Devemos sim buscar o que consideramos melhor para o bem de TODOS, isso faz parte da tradição rosacruciana, bem como o combate a intolerância e a tirania. Porém, não nos devemos dominar pelo espírito de ódio, devemos ser críticos com nossos candidatos e reconhecer que o outro está escolhendo outro candidato por algum motivo e na tentativa de acertar (mesmo que discordemos e o consideremos errado), devemos cuidar da nossa espiritualidade para não pormos ela a perder nesse momento e ao mesmo tempo para resistirmos a essa tentação de ódio vinda do tentador e dos seres malignos.

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’.
Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas.
Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado".
"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’.
Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem,
para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.
Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso!
E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!
Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês". (Mateus 5:38-48)


domingo, 2 de setembro de 2018

O cristianismo assusta o mundo esotérico.

É interessante como a tradição esotérica ocidental é totalmente pautada no judaísmo e no cristianismo (Cabala, rosacrucianismo, martinismo, etc), porém, boa parte das organizações esotéricas que temos (ordens e afins) que apregoam o esoterismo "ocidental", influenciados pelos conceitos da "Nova Era" geralmente recorrem ao esoterismo oriental (retirando elementos do budismo, hinduísmo e outras tradições) ou simplesmente buscam no neo-paganismo (ou num pseudo-paganismo tradicional) a verdadeira luz, considerando tudo o que for judaico-cristão como inferior.

É bem verdade que a igreja oficial cometeu muitos erros históricos, como qualquer outra instituição (até grupos esotéricos), o que não torna elas em si desprezíveis e menos ainda todas as maravilhas de duas religiões tão belas como o judaísmo e o cristianismo.

Também não é necessário para sermos místicos, nos desprendermos das igrejas estabelecidas. Grandes místicos eram santos cristãos: Santa Teresa D'Avila, Santo Antão, São Bento, ...  Sem falar nos pietistas, nos rosacruzes*, nos irmãos John e Charles Wesley (embora John era relutante com esse rótulo dadas as excentricidades de muitos místicos), ou mesmo o pentcostalismo original. Até os autores queridinhos na tradição esotérica ocidental como o luterano Jacob Boehme (que afirma categorcamen que Lutero restabeleceu a verdadeira religião), John Dee (que queria reconciliar os grupos cristãos entre si), Louis Claude de Saint-Martin, Willermoz e tantos outros eram cristãos fiéis até o último fio de cabelo e toda a sua mística era plenamente cristã.



Mais estranho ainda é vermos grupos que se dizem rosacruzes ou martinistas tentam fugir das bases cristãs e não percebem que estão matando a sua própria essência. A AMORC afirma que o rosacrucianismo é originário do antigo Egito, quando os manifestos rosacrucianos* e os estudos acadêmicos são claros e, dizer: o rosacrucianismo era uma ideia de protestantes místicos. A OKRC (linhagem do Biasi) oscila por alguns momentos e acaba deixando em segundo plano o seu rosacrucianismo em favor do neopaganismo da Aurum Solis (cujo o dirigente é o mesmo desse ramo da OKRC). A fraternidade Rosacruz Max Heindel se afirma cristã, o que é um mérito, entretanto, seus hinos** demonstram que sua preocupação é mais com a astrologia do que com o cristianismo (Boehme nos advertia que as influências astrais são superadas por quem é remido em Cristo). As confraternidades de Gary Stewart (CR+C***, OMCE e BMO), já buscam um pouco mais de racionalismo e varrem para debaixo do tapete o mito fundador da AMORC sobre o Egito antigo, mas igualmente em seus ensinamentos fazem questão de sumir com qualquer referência cristã, em troca de um universalismo extremado que foge de qualquer semelhança com a religião X ou Y (em boa parte por conta das crenças de seu imperator, será que com outros isso permanecerá?).

Quando se preserva algo do cristianismo, geralmente, muitas ordens o fazem com inúmeras reticências e tentando empurrar um gnosticismo (que muitas vezes nada mais é do que uma cópia do catolicismo oficial só que com uma meia dúzia de conceitos externos ao cristianismo misturados como se fossem o cristianismo original e/ou mais puro). Mas, até os grupos de tendência gnóstica (por mais que essa palavra diga muito pouco e aceite qualquer coisa), ainda possuem o mérito de manter de alguma forma o vínculo com o pensamento judaico-cristão (ao menos em parte).

É interessante que há muita disputa para provar uma pureza de sucessão em certas ordens, provar que está numa linha direta com algum mestre (mesmo que mítico), porém a principal preocupação deveria ser com a fidelidade ao que foi transmitido por ele, a base judaico-cristã da tradição esotérica ocidental, ao estudo real da bíblia e do cristianismo para não ficar naquela representação social tão comum de que cristão é quem "odeia gays e acredita em cobra falante" e que quando aprende qualquer possibilidade de interpretação alegórica de alguma passagem bíblica (algo que faz muuuuito tempo que já é normal entre judeus e cristãos) acham que descobriram o grande segredo gnóstico-esotérico-secreto que foi revelado pela ordem tal, a única com sucessão direta de fulaninho.

Certamente, Saint-Martin estaria muito mais preocupado em alguém ser um fiel cristão, preocupado em realmente sentir a presença de Deus e buscar a santidade do Espírito Santo, do que em que a pessoa tenha passado por um ritual, feito por outra pessoa que passou por outro ritual, que passou por outro, que algum dos seus alunos disse que foi feito por ele. Afinal, foi o próprio Saint-Martin que disse: “A única iniciação que prego e que procuro com todo o ardor de minha alma é aquela que nos permite entrar no coração de Deus e fazer entrar o coração de Deus em nós, para aí fazer um casamento indissolúvel, transformando-nos no amigo, irmão e esposa do Divino Reparador. Não existe outro mistério para chegar-se a essa santa iniciação a não ser este: penetrar cada vez mais nas profundezas de nosso ser até aflorar a viva e vivificante raiz; porque, então, todos os frutos que devemos portar, segundo nossa espécie, irão se produzir naturalmente em nós e fora de nós, como aqueles que vemos nascer em nossas árvores terrestres, porque são aderentes à sua raiz particular e porque não cessam de sugar seu sumo.”


Sim, meus amigos, ser rosacruz/martinista e etc é apenas uma forma de viver o cristianismo, um carisma específico de uma ordem, algo similar com o que vemos em outras ordens religiosas como dominicanos, franciscanos, jesuítas, carmelitas, etc.

Mas, nem tudo está perdido, de fato algumas ordens ainda tentam preservar essa tradição (são poucas, é verdade, mas existem). Futuramente faremos um post para falar um pouco de cada uma delas e até elogiar aquelas que eu critiquei aqui naqueles pontos em que elas permanecem fiéis.

* "Mas para que também todo Cristão possa saber de que Religião e crença somos, confessamos ter conhecimento de Jesus Cristo, mantido, defendido e propagado em determinados e notáveis países (como agora nestes últimos dias, e principalmente na Alemanha, ela é muitíssimo clara e puramente professada, e está atualmente limpa e isenta de todas as pessoas desviadas, heréticas e de falsos profetas). Também utilizamos dois Sacramentos, conforme são instituídos com todas as Formalidades e Cerimônias da primeira Igreja reformada." Fama Fraternitatis (um dos manifestos rosacruzes originais). Disponível em: https://www.crcsite.org/pt/home-pt/manifestos-rosa-cruzes/fama-fraternitatis/


** http://fraternidaderosacruz.com/images/ArtigosPDF/Hinos%20Astrologicos%20Rosacruzes.pdf

*** "A CR+C ensina misticismo Cristão?
Sendo uma ordem mística, a CR+C ensina uma abordagem mística para a busca espiritual do estudante. É um processo de despertamento para aquele ou aquela que já somos, para nossa essência espiritual. Este processo de misticismo é universal e está além, ou é independente de qualquer religião. Se existe ou existiu qualquer relação entre os dois, esta relação tem sido a do misticismo influenciando o pensamento religioso.
Talvez exista alguma confusão a este respeito que advém do nome do fundador do Rosacrucianismo. O Pai CRC (Cristão da Rosa-Cruz), por nascimento e formação, era Cristão. Após sua viagem para o Oriente e após formar a primeira célula Rosa-Cruz, ele escolheu apresentar alguns dos conceitos Rosa-Cruzes no contexto da religião dominante de sua época, o Cristianismo. Mais tarde, seus sucessores mantiveram o nome de CRC em respeito ao seu fundador e à Tradição R+C. Apenas esses fatores poderiam ser responsáveis por uma associação imprópria, tipicamente efetuada por um leitor casual, do “misticismo Cristão” com o Rosacrucianismo." https://www.crcsite.org/pt/home-pt/perguntas-frequentes/

sábado, 21 de julho de 2018

A Meditação e o Cristão

Ouça a entrevista do amigo Marcus Vinícius sobre o tema:
http://www.peloamordedeus.org.br/padd133-a-meditacao-e-o-cristao/

terça-feira, 5 de junho de 2018

Santíssima Trindade: uma compreensão mística.

Deus Trino-Uno-Comunidade
Homilia pregada no dia 27/05/2018 na Paróquia Anglicana do Bom Jesus (DARJ/IEAB).

Quando falamos na Santíssima Trindade, de alguma forma, acabamos cometendo alguns equívocos. O bispo episcopal/anglicano John Shelby Spong diz em seu livro Um Novo Cristianismo para um Novo Mundo (página 78): “A Santa Trindade não é hoje, nem nunca foi, uma descrição da existência de Deus; é sim, uma tentativa de definir nossa experiência humana de Deus”.

Então a Trindade não é como Deus é? Não é isso que estou afirmando, na realidade a Trindade é aquilo que podemos conceber de Deus. Lembremos que Deus é Eterno e sua existência está além da compreensão humana e não é atoa que os antigos indianos diziam que quem contemplasse a “Forma Universal” de Deus (ou seja, a plenitude dele) enlouqueceria e deixaria de existir, igualmente, no Antigo Testamento há o temor por vermos Deus realmente e o risco de morrermos ao acontecer isso. Não é difícil de entendermos, somos potes limitados e o que você acha que acontece com um pote quando se coloca mais coisas do que ele aguenta? Imagine agora colocar o Todo, o Infinito dentro de um pequeno Vaso de Barro? Evidentemente que ele vai explodir!

A Trindade é como Ele mesmo nos permite o conhecer e a permissão de Deus é sempre essencial, só conseguimos conhecer aquilo que Deus mesmo no revela e nos permite. Um pouco dessa angústia pode ser sentida no texto de Isaías, já que ele vê Deus e teme por si próprio, Deus porém permite que ele seja purificado para contemplar aquela cena. Ele viu o que Deus nos permite ver.

É interessante que a ideia da Trindade não é uma inovação Cristã, já estava embrionária no judaísmo, não atoa que no texto de Isaías destinado para hoje Deus é 3x Santo (Santo, Santo, Santo). Alguns veem também algum indício disto quando, no Antigo Testamento, lemos o nome do Deus único no plural (Elohim).

A própria criação é relatada no plural “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” e até quando os místicos judeus diziam que Deus antes da criação da existência era: Ayin (Nada), Ein Sof (Sem Fim), Ein Sof Aur ou Or Ein Sof(A Luz do sem Fim).*



Esses místicos judeus ainda dizem que Deus cria dentro de si algumas “manifestações/emanações”** e as 3 principais que se mantém conectadas com o divino são Keter (Coroa), Chokmá (Sabedoria) e Biná (Entendimento). Curiosamente, ou não, a Coroa nos lembra o Pai, Jesus é associado com a Sabedoria de Deus e o Espírito Santo é aquele que nos dá o Entendimento. O Deus trino é por si só inconhecível para nós, mas ele cria alguns reflexos na criação que nos permite ter vislumbres de si mesmo.

A Triunidade de Deus é incompreensível para nós, a profundidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo e o mistério que eles nos trazem, mas Deus permite que vejamos seus reflexos e seus frutos no mundo para podermos entender algo desse Deus-Comunidade.

Um ponto-chave é que se Deus é comunidade Una e nos criou a sua imagem e semelhança, é necessário retomarmos a dimensão comunitária de nossa vida. A medida que a humanidade caiu e se afastou de Deus, ela se entregou aos desejos egoístas e individualistas. Na história de Adão e Eva vemos ambos consumindo o fruto proibido sem se preocupar se isso causaria algum problema para a criação e sem buscar entender o motivo de Deus ter proibido o mesmo. Adão e Eva buscaram satisfazer seus impulsos egoístas (serpente) e com isso caíram, se afastaram de Deus e da vida em comunidade.

Proclamar a necessidade da comunidade é um ato revolucionário, estamos vivendo dias de uma grande greve de caminhoneiros que tem parado o nosso país. Qual seria a reação correta? Que as pessoas buscassem se ajudar nesse momento em que todos estão passando alguma dificuldade, mas o que vemos? As pessoas buscando se aproveitar, elevando preços de maneira abusiva em todos os locais, buscando alternativas em que “eu” possa me dar bem e não alternativas que sejam boas para todos.

Se adoramos ao Deus-Comunidade e professamos que ele nos criou para sermos comunidade de amor, a sua imagem e semelhança, sendo a Igreja chamada de o Corpo de Cristo, então precisamos nos comprometer realmente com um novo modo de vida, seguindo o alerta do Apóstolo Paulo, não nos deixando levar pela natureza egoísta humana e nos comprometendo como Isaías a levar a mensagem para todos. Não fomos purificados por Deus, lavados e remidos no Sangue de Cristo e santificados pelo Espírito Santo para desfrutarmos sozinhos dessas bençãos, antes, recebemos estes dons para usarmos em favor do nosso próximo para que ele também se torne um multiplicador dessas bençãos.

Que Deus Trino e Uno nos ensine a vivermos em uma comunidade de amor e derrube todos os intentos egoístas e perversos que rondam nossos corações e as autoridades de nosso País e nosso mundo. Isso pedimos no amor de Deus, na graça de N.S. Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo. Amém.

Morôni Azevedo de Vasconcellos | Santíssima Trindade (Ano B)
Isaías 6:1-8 | Salmo 29 | Romanos 8:12-17 | João 3:1-17

* Adotamos aqui a nomeclatura usada por Z´ev Ben Shimon Halevi no livro “O Caminho da Cabala” (existem variações possíveis).
**Simplificação para fins didáticos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Rosacrucianismo sem reencarnação: a reencarnação de ideias.

O título pode parecer estranho para muitos, acostumados com as modernas ordens rosacrucianas (que eu chamo de ordens neorosacruzes) que via-de-regra adotam a crença na reencarnação. Porém, como já demonstrei em meu livro, o rosacrucianismo clássico (ou original) seguia a risca a doutrina protestante com um víeis místico (o que não era uma grande novidades, a igreja antiga e medieval havia produzido inúmeros santos místicos, Lutero era profundamente místico, os Morávios também e o movimento pietista, carismático e pentecostal que nascerão depois também absorverão essa carga mística). Isso é bem nítido nos manifestos rosa-cruzes originais, como podemos ver no Fama Fraternitatis:

"Mas para que também todo Cristão possa saber de que Religião e crença somos, confessamos ter conhecimento de Jesus Cristo, mantido, defendido e propagado em determinados e notáveis países (como agora nestes últimos dias, e principalmente na Alemanha, ela é muitíssimo clara e puramente professada, e está atualmente limpa e isenta de todas as pessoas desviadas, heréticas e de falsos profetas). Também utilizamos dois Sacramentos, conforme são instituídos com todas as Formalidades e Cerimônias da primeira Igreja reformada."



Assim, não seria estranho pensar que os pioneiros do rosacrucianismo não fossem adeptos do conceito de reencarnação. Porém, ouso aqui levantar uma possível reinterpretação do conceito de reencarnação conforme propagado justamente por uma das principais lideranças do movimento neorosacruz: Gary L. Stewart (ex-imperator da AMORC e atual imperator da CR+C).

Gary L. Stewart

Em seu livro chamado Atitude Desperta, que é uma coletânea de textos do autor e em um desses textos sobre o tema da reencarnação, Gary assume que no movimento neorosacruciano existe uma gama de interpretações sobre a reencarnação (indo da crença absoluta até a descrença absoluta), o que já quebra um paradigma dominante nas ordens neorosacrucianas.

Porém, o autor no texto sobre reencarnação do livro Atitude Desperta (publicado pela OMCE nos EUA e pela CR+C no Brasil), bem como de maneira mais abreviada no texto sobre regressão hipnótica do livro Realização Espiritual e Outros Artigos (Publicado pela AMORC quando ele ainda era imperator) propõe um tipo interessante de reencarnação que agrada a "gregos e troianos", a reencarnação da ideia. O autor diz que já participou de uma terapia de regressão e que segundo o terapeuta ele teria sido duas personalidades históricas famosas em uma vida passada (Gary não revela no livro as supostas personalidades), porém ambas viveram ao mesmo tempo.

"Mas há uma outra pergunta que acho que muitas pessoas realmente não consideram de forma nenhuma, e a pergunta é: Há um ciclo de reencarnação de idéias e experiências que seja independente da personalidade particular de qualquer pessoa?" (p.122)

Como seria possível essa reencarnação de ideias que pode ser vista nas terapias de regressão? Simples, para Gary o mais importante é a reencarnação de ideias. Ou seja, por sua total afinidade com uma personalidade (Talvez um santo, um político, ...) você passa a ser a reencarnação daquela pessoa, não por ser a mesma pessoa que ela foi no passado, e sim por reencarnar seus ideais. Gary sustenta ainda que essa possibilidade pode ser tão profunda que cria uma certa ligação mística entre você e a sua "encarnação passada" (ou a egrégora dela) fazendo com que você tenha facilidade de aprendizado (quem sabe até aprendendo coisas intuitivamente) com aquilo que aquela outra pessoa sabia.

"Retornemos na história ao início da Ordem e pensemos nos membros e naquilo que eles estavam tentando fazer e realizar naquela época. Acho que o que poderíamos descobrir é que a sincronicidade daquilo que une as pessoas hoje não está necessariamente relacionada com experiências pessoais de reencarnação. E se esse conceito, essa coisa nebulosa da qual falamos, for uma realidade objetiva, não é ela uma forma de reencarnação, porém sem personalidade? Os ideais, a ação de se mover ou o movimento de alcançar algo, prosseguiram através dos séculos a partir de um plano elevado de manifestação, descendo e tocando aquelas pessoas que estão se harmonizando ou se esforçando em direção a tais ideais. Elas estão sendo guiadas e inspiradas por essa tradição" (p. 126-127)

De fato, mesmo negando a reencarnação da pessoa humana, admito que a reencarnação de ideias parece bem plausível e vemos que existe um certo ciclo de ideias na história da humanidade. Quantas vezes o cristianismo entrou e saiu de moda no mundo ocidental (mesmo sem ter deixado de ser a religião dominante)? quantas vezes o paganismo saiu e voltou de moda? O fascismo encontrou seu auge até o fim da segunda guerra mundial, depois quase desapareceu, mas está retornando com força em várias partes do mundo.

Sobre a possibilidade de que espiritualmente, misticamente ou algo similar possamos acabar aprendendo intuitivamente (como um dom) algo em comum com aquela outra pessoa, como se por reencarnar as ideias de São Francisco de Assis eu pudesse por exemplo já ter clareza sobre o franciscanismo sem maiores estudos, "adivinhar" o que o mesmo teria pensado em determinada situação ou quem sabe até aprender italiano com uma facilidade assustadora, admito não ter opinião formada. Entretanto, parece que quando temos forte afinidade com a ideia de alguém do passado (reencarndo suas ideias) parece que se torna bem mais fácil o aprendizado e "captamos a mente do autor" podendo fazer deduções acertadas.

Essa reencarnação de ideias pode estar ligada com todos serem parte do mesmo corpo (inicialmente do primeiro Adão e depois do segundo Adão que é Jesus Cristo)? Não posso afirmar, mas fica o desafio aos que desejarem empreender esse estudo.