sábado, 1 de dezembro de 2018

Jesus e o Tao

Se você tem uma aversão à filosofia oriental (mesmo que o cristianismo seja, por origem, uma religião oriental), seja tolerante comigo, acho que você vai achar isso interessante de qualquer maneira. Eu tenho tentado encontrar uma maneira coesa de expressar aquilo que acredito, que a pessoa de Jesus nos chama em direção àqueles passos em algo muito mais profundo do que apenas uma conversão para uma religião codificada e sua visão de mundo (Cristianismo). O Tao (Dao) oferece algo para esse espaço. Com isso em mente, aqui quero explorar Jesus e o Tao.

Muitos estarão cientes do Tao através de um escrito chamado Tao Te Ching - uma peça filosófica. Poderíamos ter algumas discussões surpreendentes e demoradas sobre o Tao Te Ching, mas sustentando isto está a ideia do Tao. É importante entender que o Tao não é uma coisa a ser entendida. O Tao é mais facilmente entendido como a ordem natural subjacente do universo. Pode-se dizer que é a essência que sustenta tudo. As traduções da palavra 'Tao' nos dão palavras como "caminho", "rota" e "curso"*. Assim, não é algo a ser apreendido, porém mais um modo de existência que sustenta tudo.

C.S. Lewis em seu trabalho, A Abolição do Homem, fala do Tao como uma lei natural e imutável (seu futuro distópico no qual a realidade fundamentada do Tao é eliminada entre os seres humanos é fascinante e coloca o poder nas mãos de um grupo de elite que se assemelha a algo que não é humano). Ele observou que novos sistemas que surgem e novas ideologias que nascem são meros fragmentos do Tao e que eles devem ao Tao qualquer senso de validade que possam ter. É importante notar que o Tao é diferente do conceito cristão de Deus, onde Deus é uma entidade pessoal (embora tal descrição fique muito aquém da realidade), enquanto o Tao é um modo de ser universal e impessoal - simplesmente é. Para entendê-lo no pensamento cristão (tanto quanto poderia ser entendido), se Deus é o Criador, então o Tao é a lei subjacente em ação no universo criado e o "caminho" pretendido para toda a criação (embora, como veremos, no pensamento cristão, os dois sejam reunidos em uma pessoa).

Tudo isso é um modo extremamente superficial de entender esses conceitos - e é por isso que o Tao Te Ching usa várias formas de escrita para desenhar uma harmonia com o Tao - muitas delas causam uma certa quantidade de dissonância cognitiva para o leitor ocidental médio. A busca de muitas religiões chinesas, várias filosofias e modos de vida que se conectam com o Tao, é harmonia com Ele - esse modo de ser é conhecido como 'De' - cultivo do caminho. A harmonia com o Tao, para muitos, é o principal modo de vida, mas não há um conjunto de "fazer e não fazer" para tal modo de vida. É claro que, como acontece com qualquer abordagem filosófica da vida da humanidade, existem formas mais rígidas de 'De', como o confucionismo, mas estou intrigado com a ideia de nossas vidas serem sobre cultivar 'o caminho' (De). É ao longo desta linha e da forma natural implícita de "ser" tanto para nós como para o universo que eu quero focar.


Em muitas versões chinesas da Bíblia, a palavra grega 'Logos' é traduzida como 'Dao' (Tao). Sabendo disso, leia João 1 e onde diz 'Palavra'**, substitua-o por 'Dao' com o entendimento de que estamos falando. Eu não quero tentar fazer conexões que não estão lá, mas há alguma clareza a ser encontrada na elaboração de todas juntas que tira um pouco da bagagem que colocamos no pensamento cristão. Além disso, Eu teria cuidado tentando fazer João dizer algo que ele pode não estar dizendo, com base na filosofia grega e chinesa e, em seguida, colocar as palavras daqueles conceitos no que ele diz. Isto é mais sobre conexões que eu acho interessantes e que levam minha fé para a linguagem de outros modos de ver e entender o mundo.

No pensamento dos filósofos estoicos gregos que seguiam os passos de Heráclito, "Logos", mais frequentemente traduzido como "palavra", era um princípio de ordem e conhecimento; eles viam isso como um princípio divino que permeava o universo - daí a tradução para 'Dao'. Portanto, Jesus poderia ter dito ser o Tao, ou o Logos dos Estoicos, encarnado. Onde o cristianismo difere da maior parte do pensamento em torno do Tao é que acreditamos que Jesus é Deus - é Divino. Assim, em Jesus, temos a corporificação do Criador (“Qualquer um que me viu viu o Pai”. João 14:9) e temos a corporificação da ordem natural pretendida do universo (o Logos ou Tao, do qual tudo vem - "por ele todas as coisas foram feitas" João 1:3). Assim, Jesus e o Tao podem ser falados na mesma frase.

Então aqui está a reviravolta - quando olhamos para a pessoa de Jesus (e sua forma divina), não vemos o chamado para uma religião (embora a prática da referida religião possa ser útil para o que estamos sendo chamados) e nós não vemos o chamado para aderir a uma lista predeterminada de crenças. Ao invés dessas coisas, vemos o chamado para algo muito mais profundo - harmonização com o Tao e, portanto, a própria intenção de nossa humanidade. Somos chamados a ser totalmente humanos; nada mais e nada menos. A linguagem do pecado, então, não é simplesmente quebrar um conjunto predeterminado de regras morais, é sobre aquilo que inibe a nossa vida desejada no Tao/Logos e, portanto, criando conflito; estabelecendo algo diferente da realidade pretendida.

As "regras" do cristianismo e todos os prós e contras em que são transformados são, na melhor das hipóteses, um derivado e uma sombra do Tao - onde o cristianismo é muitas vezes reduzido a um código moral e ético para se viver. Ao invés disso, o Cristianismo é a regra despojada e os holofotes postos na transformação que Deus opera em nós para nos recriar para o nosso verdadeiro estado como parte do Tao ou Logos - Sua ordem pretendida para o universo/criação. Nosso papel é simplesmente abrir nossas vidas para essa transformação e caminhar "pelo caminho". Cristo como Deus e o Tao/Logos é a porta de entrada ("eu sou o caminho") para nós, sendo uma nova criação moldada para a realidade pretendida - a realidade que sustenta o universo - Jesus.

Há algo criado sem forma
Nascido antes do Céu e da Terra
Tão silencioso! Tão etéreo!
Independente e imutável
Circulante e incessante
Pode ser considerada a mãe do mundo

Eu não sei o seu nome.
Identificando isso, eu chamo de "Tao"
-  Tao Te Ching  Capítulo 25

Ao identificá-lo, chamo-lhe Jesus, o Cristo - não apenas um princípio, mas uma pessoa. Alimento para o pensamento e se você continuar com ele, existem muitas muitas experiências inspiradoras/gratificantes quando Jesus, nossa jornada, e muitos conceitos cristãos populares são considerados.

Escrito pelo Rev. Francis Rithchie (Igreja Metodista Wesleyana da Nova Zelândia)
Fonte: http://francis-ritchie.com/jesus-and-the-tao/
Traduzido por Morôni Azevedo de Vasconcellos

*Aqui o autor usa Path, que pode ser o curso (como o curso de um rio) ou trajeto, optei pelo uso da palavra curso por achar que sua ideia pode se aproximar mais do inexplicável Tao.

** Algumas traduções apresentam falam Verbo e outras Palavra, usei palavra por ser a que o autor usa, apesar de que o mais usual nas bíblias em português ser o termo "Verbo".

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